domingo, 28 de fevereiro de 2010

Arte pela Bárbarie

Peço lincença para divulgar aqui o Manifesto Arte pela Barbárie.



"Ave, Senhores! Nós, que admiramos a vida, vos saudamos.

Nós, artistas, trabalhadores descartados como a maior parte da população; nós, que nos reunimos em grupos para, coletivamente, criar outra forma de produzir e existir diferente dos cárceres privados das empresas; nós, que pensamos e vivemos diferente dos Senhores, vejam só, vos saudamos.

Ave, Senhores! Nós, que teimamos em sonhar, vos saudamos.

Os senhores certamente nos conhecem: nos últimos vinte anos dada a capilaridade do nosso fazer artesanal e cotidiano, embrenhamos o nosso teatro na vida e na geografia de todo o país. Foi assim que algumas conquistas nossas impediram o saqueio cultural definitivo. A disputa por uma arte e uma cultura de relevância pública como parte das prioridades de estado, fomentaram a partir de leis e propostas democráticas, a construção de uma consciência crítica, a ponto da questão cultural fazer parte das discussões mais candentes do dia-a-dia.
É por isso que nós, que fazemos no palco, a radiografia estética de sua civilização, de sua violência, guerra e morte, do seu desmanche de seres humanos, de seu mercado falido, de sua apropriação privada do mundo e de homens; nós, que ousamos sonhar hoje para recriar a humanidade de amanhã, vos saudamos. Por que lutamos para parar a lógica da desordem que é a concorrência e a guerra entre tudo e todos em nome do lucro, da propriedade privada, da acumulação de riquezas nas mãos de poucos.
Nós, que existimos, produzimos, criamos sonhos, idéias, seres humanos. Mas não fabricamos, não podemos e nem queremos fabricar lucros. Não somos, não queremos ser e não acreditamos em vossos valores e parâmetros de eficiência e auto-sustentabilidade. Existimos. Somos o outro de vós, a outra voz, outro corpo, outro sonho. E nos afirmamos enquanto forma de produção e enquanto criação estética de pensamento e seres humanos."


MANIFESTO ARTE PELA BARBÁRIE

http://artepelabarbarie.blogspot.com

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Atores 'congelam' no palco em novo protesto político


"O espectador acompanha um espetáculo e, subitamente, os atores congelam uma cena por um tempo que parece longo. Finalmente, um deles diz: 22 segundos de "arte pela barbárie". E a peça continua como se nada houvesse, sem explicações."


http://www.dgabc.com.br/2010/News/5762649/atores-congelam-no-palco-em-novo-protesto-politico.aspx

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090826/not_imp424808,0.php



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"Você!

Você terá coragem de influenciar sua obra estética?
Você terá coragem de no meio do seu superespetáculo, que você presa tanto, ama tanto e acha tão amarradinho, abrir uma fissura no tempo e no espaço? E congelar 22 segundos? E colocar uma falhinha que não pertence à ele?
Você é capaz de juntar, unir a sua militância à sua ação estética?

Hã!



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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Novo livro sobre MARIA BONITA




Novo livro sobre a Rainha do Cangaço, será editado com apoio da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço e da UNEB - Universidade do estado da Bahia.

Dia 08 de março de 2010 será lançado o livro: Maria Bonita, diferentes contextos que envolvem a vida da Rainha do Cangaço.

O livro nasceu durante o 1° Seminário do Centenário de nascimento de Maria Bonita.

Os artigos são assinados por João de Sousa Lima, Juracy Marques, Edson Barreto, Rubervânio Lima e Antonio Galdino.

O livro será lançado dia 08 de março de 2010, no auditório da UNEB - Universidade do estado da Bahia.

Para reserva exemplares: João de Sousa Lima (75-8807-4138 / joaoarquivo44@bol.com.br) livro custará R$ 30,00

terça-feira, 29 de setembro de 2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

. cUide-se .




Sophie Calle me tocou
compartilhamos de coisas em comum
daí num surto de solidão e criatividade
nasceu 'cUide-se'
o início do que já queria fazer há algum tempo
e percebi que é possível

gabriela nery






.Recebi uma carta de rompimento.
E não soube respondê-la.
Era como se ela não me fosse destinada.
Ela terminara com as seguintes palavras: "Cuide de você".
Levei essa recomendação ao pé da letra.
Convidei 107 mulheres, escolhidas de acordo com a profissão,
para interpretar a carta do ponto de vista profissional.
Analisála, comentá-la, dançá-la, cantá-la. Esgotá-la.
Entedê-la em meu lugar.
Responder por mim.
Era maneira de ganhar tempo antes de romper.
Uma maneira de cuidar de mim.


Sophie Calle

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...n.108 - cUide-se

gabriela nery


vídeo-arte
performance
desabafo
resposta
encenação
surto


assista:


http://www.youtube.com/user/Gabrielanery.




realização:


.original.feminina.style.
.o coletivo de uma só.
..gabriela nery..

Rá!
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A exposição 'Cuide de você'

jul a set - Sesc Pompeia SP
set a nov - Museu de Arte Moderna da Bahia

http://sophiecalle.com.br/

http://www.youtube.com/watch?v=ZbNzIL6J9po.

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domingo, 28 de junho de 2009

X Moradias - intervenções teatrais em residências




Lá vou eu bem acompanhada comigo mesma assistir ao espetáculo-intervenção-itinerante X-Moradias. Um projeto em que artistas de várias partes do mundo - inclusive brasileiros - foram convidados para conceber intervenções teatrais em residências, muitas vezes com a participação dos moradores. Realizado pelo Sesc, pelo Instituto Goethe e pela Interior Produções Artísticas, é uma adaptação do projeto X Apartments, criado pelo diretor de teatro alemão Matthias Lilienthal.

Para minha surpresa os ingressos já haviam esgotados desde o dia anterior. Aii meu Deus, São Paulo não é Salvador..aqui nessa cidade de milhões de habitantes solitários, as pessoas definitivamente vão assistir a todo tipo de coisa, além do mais o 'X-Moradias' teve o apoio do Sesc e foi muito bem divulgado.

Então, no ápice do meu otimismo avisei a todos da produção que eu estava na lista de espera-desistência (que já não existia) sentei em frente ao balcão, abri meu livro 'Madame Bovary' e comecei a ler para passar o tempo e esperar que o acaso me fizesse uma surpresa agradável.

Tempo

Arrááá!!

Como uma boa libriana de sorte que sou, não é que surgiu uma alma caridosa-libertária! Um rapaz de nome bem diferente veio até mim e perguntou se eu não queria comprar o ingresso da amiga dele que não pode ir. Rá! Fui.

Agora é importante explicar o procedimento do evento. São 3 roteiros, 1.Higienópolis-Sta cecília, 2.República-Vila Buarque e 3.Consolação-Bela Vista. O público sai de 10 em 10 minutos e sempre de duas em duas (pessoas). Três não pode, faz parte do regulamento! E um é sem graça. Daí vale a máxima: 1 é pouco, 2 é bom e 3 é demais!

Então, ali naquele momento aqui-e-agora ele e eu fomos andar pela cidade no circuito 1. tenho que admitir...experência única e intransferível. Os roteiros deviam ser seguidos a pé, o percurso tinha aproximadamente 2 km e durava 2h15min. A permanência em cada apartamento era de 10 minutos. Recebemos um mapa com todas as informações necessárias, inclusive telefone para emergências e coisa e tal.

Tínhamos que visitar 7 residências, sendo uma delas foi cancela porque um morador do prédio não gostou muito da idéia de ter tantos visitantes desconhecidos. Daí o Sesc transferiu a interferência para o terraço do próprio prédio (Sesc Consolação).

1ª parada - Elisa Ohtake
No terraço do prédio do Sesc, vestidos com colete à prova de balas e óculos coloridos de coração e armados com pistolas d'água atirámavos na cidade caos. Essa era a proposta, uma guerrilha de amor e ódio para São Paulo. Flores, bolas e danças como uma guerra silenciosa de verdadeira paixão pela babilônia.

ok, acabou, as bolas davam um colorido ao céu escuro e com nuvens negras-pesadas. ali o adeus a primeira etapa daquela viência. adeus as janelas e o que havia de vida dentro delas.

descemos

agora sim, começa a caminhada.

no roteiro líamos:

''Saia do Sesc e vire à esquerda, ao chegar a esquina...''

esse era o tempo de conversa, e pra quem não se conhece esse era o momento de saber: da onde vem essa criatura? ambos éramos publicitários, e pelo que percebi, ambos de saco cheio!

2ª parada - Daniela Thomas

Explorem o apartamento..era essa indicação. Televisão em todos os cômodos e os morados conversavam por elas. O homem da cozinha preparava algo e a mulher na sala via o que ele estava fazendo pela tv. Câmeras. Ela tinha um binóculo na mão e ficava vigiando a vida alheia pela janela...coisas da vida.

3ª parada - Alvise Camozzi / Rachel Brumana

Apartamento de um casal, camisas penduradas, textos escritos nas paredes, fomos recebidos pela empregada que já tinha morado na Itália. Ela fazia questionamentos, fazía-nos pensar sobre coisas, reclamava do patrão, até que o casal nos convidou para entrar na cozinha. A mesa posta pro jantar, na hora de oferecer uma entrada...era a hora de sair.

3ª parada - Torsten Michaelsen

Aqui recebemos uns aparelhos de áudio que nos guiavam e ditavam o que devíamos fazer. cada um tinha seu caminho. Enquanto eu tiha que deitar no chão e olhar pro teto, ele explorava a cozinha e quartos...e mais questionamentos sobre a vida, o cotidiano, a moradia, os sons...até que a gravação avisa que tudo acabou e que devíamos deixar o apartamento.

No caminho, entre um lugar e outro falávamos das nossas impressões, e empolgados nos perdíamos pelo caminho.

4ª parada - Letícia Sekito

Era um trailer num estacionamento, outro tipo de moradia, uma Japa nos ofereceu chá, doces, leu uma carta para aquele nosso momento aqui-e-agora. A carta era 'o avarento'. Dançou para nós..era leve e tranquilo, outro ritmo..saímos de lá meio que flutuando...

5ª parada - Simone Mina

Mais de 50 pássaros no apartamento.
Uma recepção nada calorosa, as moradoras reais pareciam de saco cheio em receber pessoas desconhecidas, bebiam vinho. Uma vitrola tocava um disco de música clássica...me fez lembrar meu antigo apartamento em Salvador. Cheio de coisas antigas decorativas...a vitrola...

6ª e última parada - Rodrigo García

No quarto um beliche, cada cama um caixão, cada caixão um fone, cada fone uma cadeira...dos fones ouvíamos depoimentos, pessoas falando de suas vidas, seus sonhos, seus destinos, seus amores. E a gente de frente pros caixões (de defunto mesmo!), não tinha como não pensar no que eu estava fazendo de minha vida, quais eram minhas preocupações diárias, meus sonhos, meus amores e que depois de tudo, todos iam pro mesmo lugar...como no xadrez, no final do jogo o peão e o rei vão pra mesma caixa.

...e um depoimento me chamou mais a atenção, o sonho da garota era conseguir viver de teatro..e ali era eu, naquele universo de pessoas solitárias...e o que estou fazendo? Acho q estou no caminho certo, pois pra seguir o caminho certo é só ouvir a voz do coração.

Uma grande experência
E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

O teatro liberta e alimenta a alma.

Vá ao teatro!

domingo, 7 de junho de 2009

Manifesto do Teatro Essencial


Eu estava pronta desde às cinco horas.

Meu instinto me dizia: vá cedo que hoje vai lotar! As pessoas só deixam pra ver as coisas no últmo dia, em cima da hora.

Mas então fiquei.
Ficamos esperando ele..que demorou..achavam que tava cedo demais.
Chegamos no teatro...estava LOTADO! Não tínhamos a chance de entrar. Fila ENORME! Daí me perguntei: Porque não segue seu instinto?

Furamos a fila. Que bosta!
Abriram outra sessão. Que sorte! Que compaixão!

Esperamos mais uma horinha.
Entramos.

Que mullher é essa?
DENISE STOKLOS!
Cada falange, fio de cabelo, unha, pele, ossos, caras, bocas, olhos..tudo nela fala, expressa, dialoga.

No palco, o mínimo
nela, o máximo!

Como foi bom revê-la.
Saí de lá excitada, excitante, exctaziada, cabeça fervilhante, quero isso, quero assim, intensa!

Chegando em casa, comecei a escrever feito louca e voltei pra seus escritos, aqui vai parte de seu manifesto:

O Teatro Essenial de Denise Stoklos:

"Irati. Ir a ti. Pequena cidade do sul do Brasil onde nasci. Parece uma bacia, se diz. Parece sim, com aquelas montanhas ao redor do vale onde estão as casas. Da minha, eu via os campos de trigo lá longe e pensava: deve haver algo a mais, além daqui.

Senti o mesmo com o melhor teatro que encontrei. Pensava: deve haver mais, além. E tem. O a mais é o que está sempre vindo. Dentro desta disposição dialética me sinto livre.

O que me encanta no teatro é esta possibilidade de escolher. Assim, escolho para mim o Teatro Essencial. E o estabeleço como meu. Aquele teatro que tenha o mínimo possível de efeitos, o mínimo. E que contenha a máxima teatralidade em si próprio. Que na figura do humano no palco se realize uma alquimia única: aquela em que a realidade da representação (da reapresentação) é mais vibrante que o próprio tempo cronológico. Que critique esse tempo, que revele esse tempo. Que nesse fim de século o teatro possa reafirmar o sentido essencial como bem mais evidente que matéria descartável. Quero trocar a fantasia da composição teatral pela presença viva do ator. Acredito na relação de nova realidade que se faz na força da presença viva do ator, engajado na história com suas idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água na fonte. Os valores do palco muitas vezes estão povoados de valores de bastidor, de camarim. Quero o palco nu. Os figurinos, cenários e discursos radiofônicos muits vezes acoplam parasitárias imagens no ator. Não quero decoração.

Quero no seco. Com raiva decreto o fim do excesso. A pirotecnia mente. Quero sinceridade.

No lixo o broche. No palco o peito.

O ritmo e o espaço em si trazem diagramas teatrais vertentes de riqueza. Cervantes e a palavra, Beethoven e a nota, o teatro e o ator... De Irati a Londres, Pequim, Zurique, Nova Iorque, Nova Delhi, permanece a idéia dos campos de trigo. Em qualquer lugar eu os vejo no horizonte me provocando o pensamento: deve haver mais, além.

Como atriz, diretora, autora, minha preocupação sempre é o poder, as injustiças sociais, os comportamentos padronizados, a estética e a ética rançosa do sistema patriarcal capitalista.

Cada vez mais estou menos interessada nos movimentos microcósmicos da sociedade. Cada vez menos cultivo ídolos. Cada vez menos acredito no best-seller. O senso comum está desmistificado no Brasil que pára para ver novela. Que elege seus mitos com os mesmos parâmetros com que reclama, invariável e passivamente, do governo. Essa sociedade que se protege no útero do padrão. Cada vez mais estou mais anarquista. Cada vez mais rio dos políticos (dos de profissão e dos de atuação). Cada vez mais me salvo pelo caminho pessoal, individual, único. Aos meus ex-alunos sempre digo, se me perguntam o que fazer: inventem, porque os princípios estão rangendo, há algo de podre em todos os lugares. Trabalho pelas gerações que virão, não tenho a menor crença no resultado imediato. Mas sei que o Teatro Essencial altera algumas bases do nosso teatro. Já não fico bêbada com o sucesso. Apenas mais científica sobre as platéias. Nem as conquistas de mídia me seduzem. Não me delicio com o deslumbre. Quero uma organização mais limpa da comunicação. Que se respire menos barrocamente nesta área.

Odeio a maior parte das regras de nossa organização social. Considero antivida, com cheiro de mofo, todos os cânones comportamentais, o gosto da estética burguesa, a despersonalização de colonizado. A morna atitude de nossa nação mediocriza nossa experiência vital. Aí nossa cultura reflete esse cômodo respirar consumista, essa falta de diversidade. Esse pequeno clube de interior, que é nosso ambiente cultural, se ressente. Ser artista aqui exige que se enfrente o solitário desejo pessoal de mudar, de inventar, de renovar. Quanto ao mercado, sobreviver dentro dele já é outra perspectiva. Igual a qualquer outro mercado. Acrescido do abandono do que seja arte numa Republiqueta.

(...)

Não dispenso a chance de manifestar-me na expansão do meu feminino, que é peculiar, que é único. Meu trabalho é o de uma mulher no século XX. Como não ser especial? Não, não dispenso meu trilho do feminino. Temos toda a História sendo escrita. Somos nova, frescas e fortes.

Não esqueço a miséria do Brasil, da miséria latina. A miséria do não-pão, da miséria do egoísmo, a miséria dos ideais, a miséria cultural, a miséria televisiva, a miséria das relações humanas, a miséria da saúde, a miséria dos sonhos, a miséria da loteria, a miséria dos enganos, dos remédios, do desespero, da solidão. A tragédia brasileira. Os cambodjas cotidianos nos hospitais do Brasil. As chernobylls escorrendo das favelas, nos trens da Central. O heroísmo largando a capa e a espada, saltando para a página documentária. Olho no olho da pobreza, cheiro de sujeira e fome, muita fome, em todas as classes do Brasil. De pão com vitamina, do faisão de uma boa música. Fome e ecologia gritam nas escadaria do palácio do Planalto, inutilmente. Gritam na História. Artista tem ouvido de tuberculoso. Político é sadio. As pessoas pensantes, não as que não gostam de pensar, mas as que saboreiam o cérebro e acariciam a alma, estão muito preocupadas. Com o vírus, com o fim. Tudo está muito urgente agora. Os valores se atropelam. Há muitos espetáculos de teatro que olho e penso: mas isso é pré-Aids, agora não é mais assim.

(...)

Minha idade é massa, minha idade é bela. Nela não se é mais predicado nem sujeito. A gente vira verbo de si própria. A gente vira agente.

Que bom que não fiz nenhum festival da canção antes. Estou mais apta hoje, para os inimigos. Me sinto mais categorizada com a raiva sem fim que trago contra a banalização, o superficial. Me sinto geração eleita ser a última de meia-idade deste século redondo, o vinte. Para nós reservou-se o pior. Por isso fomos tão violentamente treinados em nossa juventude precoce. Convivi muito com o suicídio mental para despertar hoje os princípios da sobrevivência com know-how. Escolher e alimentá-los. A ilusão morreu nos primeiros vagidos do sucesso. Depois recolhemos a placenta e a comemos como vaca. Amamentou-se o feto. Deu no que deu: maturidade. Aceito o fim do meu século como presente de poderosos: somente kharmas autônomos o enfrentarão com criatividade e vitalidade. A verdade hoje assumiu-se como passaporte para o século XXI. Me lembro de um dia, nos anos 60, em que escrevi: "O astronauta americano hoje pousou na lua. O monopólio estendeu-se pelo universo".

Hoje, duas décadas de guerras, me considero vitoriosa na resistência, com uma família bem especial, um teatro pessoal e absurdamente feliz.

Londres, Pequim, Zurique, Nova Iorque, Nova Delhi, Rio. Feito égua selvagem, me recuso a sair do pasto de Irati. É de lá que vejo os campos de trigo."

Denise Stoklos - Março de 1987

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CRONISTA: FILHO DE CRONOS COM ISHTAR.




(domingo, 13 de Setembro de 1993)

Uma das coisas que eu mais admiro em alguém é o humor. Nada a ver com a boçalidade. Alguns me pedem crônicas sérias. Gente... o que fui de séria nos meus textos nestes 43 anos de escritora! Tão séria que meu querido amigo, jornalista e critico, Jose Castelo, escreveu que eu provoco a fuga insana, isto é, o cara começa a me ler e sai correndo pro funil do infinito. Tão seria que provoco o pânico. E nestas crônicas o que eu menos desejo é provocar o pânico... Já pensaram, a cada segunda-feira, os leitores atirando o jornal pelos ares e ensandecendo? Já pensaram o que é isso de falar a sério e dizer por exemplo: que é isso, meu chapa, nós vamos todos morrer e apodrecer (ainda bem que não é apodrecer e depois morrer, o lá de cima foi bonzinho nesse pedaço), tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa ser sua vai ser logo mais de alguém, tu é hospede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não ser? Tá chateado por que? Tu também vai envelhecer, ficar gling-glang e morrer... (há belas exceções como o Bertrand Russel fazendo comício aos 90, mas tu não é o Bertrand Russel). Até o Sartre, gente, inteligentíssimo, ficou na velhice se mijando nas calças e fazendo papelão... Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que eh tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o habito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor.
Mas quem é que vocês conhecem que pensa? As mães que nos colocaram no Planeta pensaram? Claro que não. Na hora de revirá os óinho ninguém pensa. Só seria justificável parir se teu pimpolho fosse imortal e vivesse a mão direita Daquele. Mas teu pimpolho também vai morrer e apodrecer não sem antes passar por todos os horrores do Planeta. Tá jogando fora o jornal, benzinho? Então vamos brincar de inventar uma nova semântica:
Semântica – Antologia do Sêmen
Solipsismo – Psiquismo Solitário
Hipérbole – Bola Grande
Xenofobia – Fobia de Xenos
Ligadura – Liga das Senhoras Catolicas
Ânulo – Filete colocado por sob o bocel da cornija do capitel dórico
Bocel – Corruptela de Boçal
Ânus – Pronuncia errada de anus (ave da família dos cuculídeos)
Ku – Lua em finlandês
Cou (Pronuncia-se Cu) – Pescoço em Frances
Hipocampo – Campo de Hipismo
Proclamas – Alvoroço de amas
Misantropia – Entropia do Méson Mi
Democracia – Poder do Demo
Paradoxo – Oxiúros em estado de repouso (parado)
Republica – Ré muito manjada
Bom dia, leitor! Tá contente?

Contente – Filho do ente do Heidegger (informe-se) com Cohn-Bendit (informe-se).

>>Hilda Hilst

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Vicky, Cristina e Barcelona...tudo dentro de mim.


Ontem à noite saí de casa pra ver a peça "Hilda Hilst - o espírito da coisa", já estava pronta em matéria e espírito quando li no site que dia de sexta era mais barato. Hummm...pensei...vou deixar pra sexta e aproveitar pra ir na feirinha do Center 3 dá uma olhada no que tá rolando de novidade no mundo da moda alternativa em SP, depois passo no HSBC pra ver "Vicky Cristina Barcelona".

Bom, meu intuito de economizar foi por água a baixo, acabei comprando umas coisas lindas e 'necessárias' (deus me dê grana).

20H00 estava eu lá no HSBC (o filme começava às 21h30)..toma café e vai ler a Bravo desse mês que tá com a matéria da Fernanda Montenegro em seu monólogo sobre Simone de Beauvoir 'Viver sem tempos mortos'. Sem cenário, só uma cadeira e uma luz, ela sentada discorre sobre as cartas dessa escritora feminista que foi casada com Jean-Paul Sartre. Simone escreveu 'O segundo sexo' e foi grande protagonista da mudança de comportamento da mulher no mundo em 1949, vale ressaltar que nessa época, ela e Sartre já mantinham uma relação aberta e se cercavam de vários parceiros sexuais. Aiaiaiaiiii. Será que é possível
mesmo?

Bom, vamos lá..o filme começa.
Duas amigas chegam a Barcelona..a cidade dos meus sonhos! Ficam numa casa de um casal rico (coisa chata) e lá vão passar um verão inesquecível.




Digo que tenho Vicky dentro de mim, porque ela é o que eu era até pouco tempo atrás antes de tentar ter uma relação aberta (ó eu seguindo a Simone). EXTREMAMENTE FIEL, tremia nas bases a qualquer sombra de aproximação masculina, era inteiramente DELE e c-o-r-r-e-t-í-s-s-i-m-a! Na melhor das traduções TRAVADA!

Depois que o mundo nos mostra que é bem mais interessante você relaxar e se entregar pra uma vida mais sincera consigo mesma, que o inferno não existe, e você não vai queimar nas profundezas de Hades se 'deixar rolar as emoções', até porque a maioria dos homens não
fazem isso, então porque se reprimir sozinha?


Daí vem meu lado Cristina, uma mulher livre e disposta a experimentar tudo e mais um pouco o que a vida tem para oferecer sem medo ou culpas. Porque gente, é isso que a gente leva da vida, e mais que isso, é esse o propósito do vida...SER FELIZ e mais nada. Então Cristina vai se envolver com um artista plástico que ainda não tinha conseguido se desvencilhar de sua ex mulher (Penélope Cruz - onde me vi pela terceira vez, uma mulher caótica, estérica, forte, criativa e imprevisível).


Aquele casal me lembrou algo muito familiar...eles eram violentíssimos!! E se amavam...e algo não dava certo. Aí para minha surpresa os três (Cristina, Penélope - não me lembro o nome de sua personagem, e Antônio) vão viver uma relação mais-do-que-aberta. Essa situação ainda não vivi, pelo menos dentro da mesma casa, porque ai é meu lado Vicky que insiste em permanecer de alguma forma.


Mas digo, por tudo que passei nesses últimos tempos, acho que não estou muito distante disso não. Não que eu queira viver assim, e sim porque a vida foi tomando um rumo que me obrigava a ser...desprendida. E acho que poucas mulheres suportariam viver a experiência que tive.

Coisas da vida.

Só sei que valeu a pena ter assistido o filme, e mais do que tudo...quanto mais eu a vejo mais tenho a certeza de que quando crescer (em alma pelo menos) quero ser Penélope Cruz!





sexta-feira, 8 de maio de 2009

Acho que não sei mais escrever


estou aqui, e agora?
forçar-me a dialogar comigo mesma.

eu e meu duplo, minha sombra, meu ego.

eco


...estou feliz com minha escolha, mas às vezes me sinto só.
A solidão das grandes cidades e as pessoas que não sabem se são educadas ou arrogantes. Vivem com suas questões e seus super-egos.


Será?

Essa pergunta não sai da minha cabeça. Ligo ou não ligo? Ligo. Estou me sentindo uma imbecil também. Sei que fiz a escolha certa, mas segundo Hilda 'tu não te moves de ti' . Valderez está me ensinando a desenvolver mais o raciocínio e a ter críticas. Mas antes não devo aprender a criticar a mim mesma?

Onde está o botão que apaga em mim aquele sentimento que não quero mais? Ou aquele cientista que descobriu onde apagar da memória aquela lembrança que não lhe serve? Estou brigando com minha memória.

Grande aprendizado esse aqui. Não é nada fácil viver distante do seu mundo confortável. Longe de tudo, da sua origem, do seu círculo de pessoas queridas e aventurar-se em outro mundo um tanto distante, em busca daquele sonho mais alto, de poder mergulhar num mar de possibilidades e não naquela piscina rasa.


Aqui tudo é distante, difícil, caro e frio.

Cada um por si, e alguns ajudando...mas é tudo tão difícil, e mesmo assim aqui permaneço, pois as portas estão se abrindo, os canais estão se abrindo de interlocução para com as possibilidades do crescimento que estou almejando.


Não ia adiantar ficar lá em nome de nada! Então porque a dor? Se já está decidido e feito. E pior, não se tem vontade de se desfazer. Não há possibilidade de voltar, a não ser a minha infância, em busca de colher material para Lori.

E aqui fico
E aqui permaneço
Com dores
Amarguras
Momentos e instantes felizes na certeza da escolha correta.

A saudade passa, como tudo passa e o que importa é estar em busca de sua realização.


E ainda pergunto: Se você tiver que escolher entre você e seu amor você escolhe quem?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O HAVER



Resta acima de tudo / Essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / Perdoai! Eles não tem culpa de ter nascido / Resta esse antigo respeito pela noite / Esse falar baixo / Essa mão que tateia antes de ter / Esse medo de ferir tocando / Essa forte mão de homem / Cheia de mansidão para com tudo que existe / Resta essa imobilidade / Essa economia de gestos / Essa inércia cada vez maior diante do infinito / Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível / Essa irredutível recusa à poesia não vivida / Resta essa comunhão com os sons / Esse sentimento de matéria em repouso / Essa angústia a simutaneidade do tempo / Essa lenta decomposição poética em busca de uma só vida, uma só morte / Um só Vinícius / Resta esse coração queimando como um círio / Numa catedral em ruínas / Essa tristeza diante do cotidiano / Ou essa súbita alegria / Ao ouvir na madrugada passos que se perdem na memória / Essa vontade de chorar diante da beleza / Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido / Essa imensa piedade de si mesmo / Essa imensa piedade de sua inútil poesia / E sua força inútil / Resta esse sentimento da infância subtamente desentranhado de pequenos absurdos / Essa tola capacidade de rir à toa / Esse ridículo desejo de ser útil / E essa coragem de comprometer-se sem necessidade / Resta essa distração, essa disponibilidade / Essa vagueza de quem sabe que tudo já foi / Como será, como virá ser / E ao mesmo tempo esse desejo de servir / Essa contemporaneidade com o amanhã dos que não tem ontem nem hoje / Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade / Dentro dessa incapacidade de acietá-la tal como é / Essa visão ampla dos acontecimentos / E essa impressionante e desnecessária paciência / E essa memória anterior de mundos inexistentes / E esse heroísmo estático / E essa pequenina luz indecifrável / A que às vezes os poetas tomam de esperança / Resta obstinação em não fugir do labirinto / Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente / E essa coragem indizível diante do grande medo / E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva / Resta esse desejo de sentir-se igual a todos / De refletir-se olhares sem curiosidade e sem história / Resta essa pobreza intrínseca / Esse orgulho / Essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino / Resta essa fidelidade à mulher e seu tormento / Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável / Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços / E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado / Resta esse diálogo cotidiano com a morte / Esse fascínio pelo momento a vir / Quando emocionada ela virá me abrir a porta, como uma velha amante / Sem saber que é a minha mais nova namorada


Vinícius de Moraes