domingo, 28 de junho de 2009

X Moradias - intervenções teatrais em residências




Lá vou eu bem acompanhada comigo mesma assistir ao espetáculo-intervenção-itinerante X-Moradias. Um projeto em que artistas de várias partes do mundo - inclusive brasileiros - foram convidados para conceber intervenções teatrais em residências, muitas vezes com a participação dos moradores. Realizado pelo Sesc, pelo Instituto Goethe e pela Interior Produções Artísticas, é uma adaptação do projeto X Apartments, criado pelo diretor de teatro alemão Matthias Lilienthal.

Para minha surpresa os ingressos já haviam esgotados desde o dia anterior. Aii meu Deus, São Paulo não é Salvador..aqui nessa cidade de milhões de habitantes solitários, as pessoas definitivamente vão assistir a todo tipo de coisa, além do mais o 'X-Moradias' teve o apoio do Sesc e foi muito bem divulgado.

Então, no ápice do meu otimismo avisei a todos da produção que eu estava na lista de espera-desistência (que já não existia) sentei em frente ao balcão, abri meu livro 'Madame Bovary' e comecei a ler para passar o tempo e esperar que o acaso me fizesse uma surpresa agradável.

Tempo

Arrááá!!

Como uma boa libriana de sorte que sou, não é que surgiu uma alma caridosa-libertária! Um rapaz de nome bem diferente veio até mim e perguntou se eu não queria comprar o ingresso da amiga dele que não pode ir. Rá! Fui.

Agora é importante explicar o procedimento do evento. São 3 roteiros, 1.Higienópolis-Sta cecília, 2.República-Vila Buarque e 3.Consolação-Bela Vista. O público sai de 10 em 10 minutos e sempre de duas em duas (pessoas). Três não pode, faz parte do regulamento! E um é sem graça. Daí vale a máxima: 1 é pouco, 2 é bom e 3 é demais!

Então, ali naquele momento aqui-e-agora ele e eu fomos andar pela cidade no circuito 1. tenho que admitir...experência única e intransferível. Os roteiros deviam ser seguidos a pé, o percurso tinha aproximadamente 2 km e durava 2h15min. A permanência em cada apartamento era de 10 minutos. Recebemos um mapa com todas as informações necessárias, inclusive telefone para emergências e coisa e tal.

Tínhamos que visitar 7 residências, sendo uma delas foi cancela porque um morador do prédio não gostou muito da idéia de ter tantos visitantes desconhecidos. Daí o Sesc transferiu a interferência para o terraço do próprio prédio (Sesc Consolação).

1ª parada - Elisa Ohtake
No terraço do prédio do Sesc, vestidos com colete à prova de balas e óculos coloridos de coração e armados com pistolas d'água atirámavos na cidade caos. Essa era a proposta, uma guerrilha de amor e ódio para São Paulo. Flores, bolas e danças como uma guerra silenciosa de verdadeira paixão pela babilônia.

ok, acabou, as bolas davam um colorido ao céu escuro e com nuvens negras-pesadas. ali o adeus a primeira etapa daquela viência. adeus as janelas e o que havia de vida dentro delas.

descemos

agora sim, começa a caminhada.

no roteiro líamos:

''Saia do Sesc e vire à esquerda, ao chegar a esquina...''

esse era o tempo de conversa, e pra quem não se conhece esse era o momento de saber: da onde vem essa criatura? ambos éramos publicitários, e pelo que percebi, ambos de saco cheio!

2ª parada - Daniela Thomas

Explorem o apartamento..era essa indicação. Televisão em todos os cômodos e os morados conversavam por elas. O homem da cozinha preparava algo e a mulher na sala via o que ele estava fazendo pela tv. Câmeras. Ela tinha um binóculo na mão e ficava vigiando a vida alheia pela janela...coisas da vida.

3ª parada - Alvise Camozzi / Rachel Brumana

Apartamento de um casal, camisas penduradas, textos escritos nas paredes, fomos recebidos pela empregada que já tinha morado na Itália. Ela fazia questionamentos, fazía-nos pensar sobre coisas, reclamava do patrão, até que o casal nos convidou para entrar na cozinha. A mesa posta pro jantar, na hora de oferecer uma entrada...era a hora de sair.

3ª parada - Torsten Michaelsen

Aqui recebemos uns aparelhos de áudio que nos guiavam e ditavam o que devíamos fazer. cada um tinha seu caminho. Enquanto eu tiha que deitar no chão e olhar pro teto, ele explorava a cozinha e quartos...e mais questionamentos sobre a vida, o cotidiano, a moradia, os sons...até que a gravação avisa que tudo acabou e que devíamos deixar o apartamento.

No caminho, entre um lugar e outro falávamos das nossas impressões, e empolgados nos perdíamos pelo caminho.

4ª parada - Letícia Sekito

Era um trailer num estacionamento, outro tipo de moradia, uma Japa nos ofereceu chá, doces, leu uma carta para aquele nosso momento aqui-e-agora. A carta era 'o avarento'. Dançou para nós..era leve e tranquilo, outro ritmo..saímos de lá meio que flutuando...

5ª parada - Simone Mina

Mais de 50 pássaros no apartamento.
Uma recepção nada calorosa, as moradoras reais pareciam de saco cheio em receber pessoas desconhecidas, bebiam vinho. Uma vitrola tocava um disco de música clássica...me fez lembrar meu antigo apartamento em Salvador. Cheio de coisas antigas decorativas...a vitrola...

6ª e última parada - Rodrigo García

No quarto um beliche, cada cama um caixão, cada caixão um fone, cada fone uma cadeira...dos fones ouvíamos depoimentos, pessoas falando de suas vidas, seus sonhos, seus destinos, seus amores. E a gente de frente pros caixões (de defunto mesmo!), não tinha como não pensar no que eu estava fazendo de minha vida, quais eram minhas preocupações diárias, meus sonhos, meus amores e que depois de tudo, todos iam pro mesmo lugar...como no xadrez, no final do jogo o peão e o rei vão pra mesma caixa.

...e um depoimento me chamou mais a atenção, o sonho da garota era conseguir viver de teatro..e ali era eu, naquele universo de pessoas solitárias...e o que estou fazendo? Acho q estou no caminho certo, pois pra seguir o caminho certo é só ouvir a voz do coração.

Uma grande experência
E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

O teatro liberta e alimenta a alma.

Vá ao teatro!

domingo, 7 de junho de 2009

Manifesto do Teatro Essencial


Eu estava pronta desde às cinco horas.

Meu instinto me dizia: vá cedo que hoje vai lotar! As pessoas só deixam pra ver as coisas no últmo dia, em cima da hora.

Mas então fiquei.
Ficamos esperando ele..que demorou..achavam que tava cedo demais.
Chegamos no teatro...estava LOTADO! Não tínhamos a chance de entrar. Fila ENORME! Daí me perguntei: Porque não segue seu instinto?

Furamos a fila. Que bosta!
Abriram outra sessão. Que sorte! Que compaixão!

Esperamos mais uma horinha.
Entramos.

Que mullher é essa?
DENISE STOKLOS!
Cada falange, fio de cabelo, unha, pele, ossos, caras, bocas, olhos..tudo nela fala, expressa, dialoga.

No palco, o mínimo
nela, o máximo!

Como foi bom revê-la.
Saí de lá excitada, excitante, exctaziada, cabeça fervilhante, quero isso, quero assim, intensa!

Chegando em casa, comecei a escrever feito louca e voltei pra seus escritos, aqui vai parte de seu manifesto:

O Teatro Essenial de Denise Stoklos:

"Irati. Ir a ti. Pequena cidade do sul do Brasil onde nasci. Parece uma bacia, se diz. Parece sim, com aquelas montanhas ao redor do vale onde estão as casas. Da minha, eu via os campos de trigo lá longe e pensava: deve haver algo a mais, além daqui.

Senti o mesmo com o melhor teatro que encontrei. Pensava: deve haver mais, além. E tem. O a mais é o que está sempre vindo. Dentro desta disposição dialética me sinto livre.

O que me encanta no teatro é esta possibilidade de escolher. Assim, escolho para mim o Teatro Essencial. E o estabeleço como meu. Aquele teatro que tenha o mínimo possível de efeitos, o mínimo. E que contenha a máxima teatralidade em si próprio. Que na figura do humano no palco se realize uma alquimia única: aquela em que a realidade da representação (da reapresentação) é mais vibrante que o próprio tempo cronológico. Que critique esse tempo, que revele esse tempo. Que nesse fim de século o teatro possa reafirmar o sentido essencial como bem mais evidente que matéria descartável. Quero trocar a fantasia da composição teatral pela presença viva do ator. Acredito na relação de nova realidade que se faz na força da presença viva do ator, engajado na história com suas idiossincrasias, sem recursos do fabricado, limpidamente como água na fonte. Os valores do palco muitas vezes estão povoados de valores de bastidor, de camarim. Quero o palco nu. Os figurinos, cenários e discursos radiofônicos muits vezes acoplam parasitárias imagens no ator. Não quero decoração.

Quero no seco. Com raiva decreto o fim do excesso. A pirotecnia mente. Quero sinceridade.

No lixo o broche. No palco o peito.

O ritmo e o espaço em si trazem diagramas teatrais vertentes de riqueza. Cervantes e a palavra, Beethoven e a nota, o teatro e o ator... De Irati a Londres, Pequim, Zurique, Nova Iorque, Nova Delhi, permanece a idéia dos campos de trigo. Em qualquer lugar eu os vejo no horizonte me provocando o pensamento: deve haver mais, além.

Como atriz, diretora, autora, minha preocupação sempre é o poder, as injustiças sociais, os comportamentos padronizados, a estética e a ética rançosa do sistema patriarcal capitalista.

Cada vez mais estou menos interessada nos movimentos microcósmicos da sociedade. Cada vez menos cultivo ídolos. Cada vez menos acredito no best-seller. O senso comum está desmistificado no Brasil que pára para ver novela. Que elege seus mitos com os mesmos parâmetros com que reclama, invariável e passivamente, do governo. Essa sociedade que se protege no útero do padrão. Cada vez mais estou mais anarquista. Cada vez mais rio dos políticos (dos de profissão e dos de atuação). Cada vez mais me salvo pelo caminho pessoal, individual, único. Aos meus ex-alunos sempre digo, se me perguntam o que fazer: inventem, porque os princípios estão rangendo, há algo de podre em todos os lugares. Trabalho pelas gerações que virão, não tenho a menor crença no resultado imediato. Mas sei que o Teatro Essencial altera algumas bases do nosso teatro. Já não fico bêbada com o sucesso. Apenas mais científica sobre as platéias. Nem as conquistas de mídia me seduzem. Não me delicio com o deslumbre. Quero uma organização mais limpa da comunicação. Que se respire menos barrocamente nesta área.

Odeio a maior parte das regras de nossa organização social. Considero antivida, com cheiro de mofo, todos os cânones comportamentais, o gosto da estética burguesa, a despersonalização de colonizado. A morna atitude de nossa nação mediocriza nossa experiência vital. Aí nossa cultura reflete esse cômodo respirar consumista, essa falta de diversidade. Esse pequeno clube de interior, que é nosso ambiente cultural, se ressente. Ser artista aqui exige que se enfrente o solitário desejo pessoal de mudar, de inventar, de renovar. Quanto ao mercado, sobreviver dentro dele já é outra perspectiva. Igual a qualquer outro mercado. Acrescido do abandono do que seja arte numa Republiqueta.

(...)

Não dispenso a chance de manifestar-me na expansão do meu feminino, que é peculiar, que é único. Meu trabalho é o de uma mulher no século XX. Como não ser especial? Não, não dispenso meu trilho do feminino. Temos toda a História sendo escrita. Somos nova, frescas e fortes.

Não esqueço a miséria do Brasil, da miséria latina. A miséria do não-pão, da miséria do egoísmo, a miséria dos ideais, a miséria cultural, a miséria televisiva, a miséria das relações humanas, a miséria da saúde, a miséria dos sonhos, a miséria da loteria, a miséria dos enganos, dos remédios, do desespero, da solidão. A tragédia brasileira. Os cambodjas cotidianos nos hospitais do Brasil. As chernobylls escorrendo das favelas, nos trens da Central. O heroísmo largando a capa e a espada, saltando para a página documentária. Olho no olho da pobreza, cheiro de sujeira e fome, muita fome, em todas as classes do Brasil. De pão com vitamina, do faisão de uma boa música. Fome e ecologia gritam nas escadaria do palácio do Planalto, inutilmente. Gritam na História. Artista tem ouvido de tuberculoso. Político é sadio. As pessoas pensantes, não as que não gostam de pensar, mas as que saboreiam o cérebro e acariciam a alma, estão muito preocupadas. Com o vírus, com o fim. Tudo está muito urgente agora. Os valores se atropelam. Há muitos espetáculos de teatro que olho e penso: mas isso é pré-Aids, agora não é mais assim.

(...)

Minha idade é massa, minha idade é bela. Nela não se é mais predicado nem sujeito. A gente vira verbo de si própria. A gente vira agente.

Que bom que não fiz nenhum festival da canção antes. Estou mais apta hoje, para os inimigos. Me sinto mais categorizada com a raiva sem fim que trago contra a banalização, o superficial. Me sinto geração eleita ser a última de meia-idade deste século redondo, o vinte. Para nós reservou-se o pior. Por isso fomos tão violentamente treinados em nossa juventude precoce. Convivi muito com o suicídio mental para despertar hoje os princípios da sobrevivência com know-how. Escolher e alimentá-los. A ilusão morreu nos primeiros vagidos do sucesso. Depois recolhemos a placenta e a comemos como vaca. Amamentou-se o feto. Deu no que deu: maturidade. Aceito o fim do meu século como presente de poderosos: somente kharmas autônomos o enfrentarão com criatividade e vitalidade. A verdade hoje assumiu-se como passaporte para o século XXI. Me lembro de um dia, nos anos 60, em que escrevi: "O astronauta americano hoje pousou na lua. O monopólio estendeu-se pelo universo".

Hoje, duas décadas de guerras, me considero vitoriosa na resistência, com uma família bem especial, um teatro pessoal e absurdamente feliz.

Londres, Pequim, Zurique, Nova Iorque, Nova Delhi, Rio. Feito égua selvagem, me recuso a sair do pasto de Irati. É de lá que vejo os campos de trigo."

Denise Stoklos - Março de 1987

quarta-feira, 3 de junho de 2009

CRONISTA: FILHO DE CRONOS COM ISHTAR.




(domingo, 13 de Setembro de 1993)

Uma das coisas que eu mais admiro em alguém é o humor. Nada a ver com a boçalidade. Alguns me pedem crônicas sérias. Gente... o que fui de séria nos meus textos nestes 43 anos de escritora! Tão séria que meu querido amigo, jornalista e critico, Jose Castelo, escreveu que eu provoco a fuga insana, isto é, o cara começa a me ler e sai correndo pro funil do infinito. Tão seria que provoco o pânico. E nestas crônicas o que eu menos desejo é provocar o pânico... Já pensaram, a cada segunda-feira, os leitores atirando o jornal pelos ares e ensandecendo? Já pensaram o que é isso de falar a sério e dizer por exemplo: que é isso, meu chapa, nós vamos todos morrer e apodrecer (ainda bem que não é apodrecer e depois morrer, o lá de cima foi bonzinho nesse pedaço), tu não é ninguém, meu chapa, tudo é transitório, a casa que cê pensa ser sua vai ser logo mais de alguém, tu é hospede do tempo, negão, já pensou como vai ser o não ser? Tá chateado por que? Tu também vai envelhecer, ficar gling-glang e morrer... (há belas exceções como o Bertrand Russel fazendo comício aos 90, mas tu não é o Bertrand Russel). Até o Sartre, gente, inteligentíssimo, ficou na velhice se mijando nas calças e fazendo papelão... Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que eh tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o habito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor.
Mas quem é que vocês conhecem que pensa? As mães que nos colocaram no Planeta pensaram? Claro que não. Na hora de revirá os óinho ninguém pensa. Só seria justificável parir se teu pimpolho fosse imortal e vivesse a mão direita Daquele. Mas teu pimpolho também vai morrer e apodrecer não sem antes passar por todos os horrores do Planeta. Tá jogando fora o jornal, benzinho? Então vamos brincar de inventar uma nova semântica:
Semântica – Antologia do Sêmen
Solipsismo – Psiquismo Solitário
Hipérbole – Bola Grande
Xenofobia – Fobia de Xenos
Ligadura – Liga das Senhoras Catolicas
Ânulo – Filete colocado por sob o bocel da cornija do capitel dórico
Bocel – Corruptela de Boçal
Ânus – Pronuncia errada de anus (ave da família dos cuculídeos)
Ku – Lua em finlandês
Cou (Pronuncia-se Cu) – Pescoço em Frances
Hipocampo – Campo de Hipismo
Proclamas – Alvoroço de amas
Misantropia – Entropia do Méson Mi
Democracia – Poder do Demo
Paradoxo – Oxiúros em estado de repouso (parado)
Republica – Ré muito manjada
Bom dia, leitor! Tá contente?

Contente – Filho do ente do Heidegger (informe-se) com Cohn-Bendit (informe-se).

>>Hilda Hilst

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Vicky, Cristina e Barcelona...tudo dentro de mim.


Ontem à noite saí de casa pra ver a peça "Hilda Hilst - o espírito da coisa", já estava pronta em matéria e espírito quando li no site que dia de sexta era mais barato. Hummm...pensei...vou deixar pra sexta e aproveitar pra ir na feirinha do Center 3 dá uma olhada no que tá rolando de novidade no mundo da moda alternativa em SP, depois passo no HSBC pra ver "Vicky Cristina Barcelona".

Bom, meu intuito de economizar foi por água a baixo, acabei comprando umas coisas lindas e 'necessárias' (deus me dê grana).

20H00 estava eu lá no HSBC (o filme começava às 21h30)..toma café e vai ler a Bravo desse mês que tá com a matéria da Fernanda Montenegro em seu monólogo sobre Simone de Beauvoir 'Viver sem tempos mortos'. Sem cenário, só uma cadeira e uma luz, ela sentada discorre sobre as cartas dessa escritora feminista que foi casada com Jean-Paul Sartre. Simone escreveu 'O segundo sexo' e foi grande protagonista da mudança de comportamento da mulher no mundo em 1949, vale ressaltar que nessa época, ela e Sartre já mantinham uma relação aberta e se cercavam de vários parceiros sexuais. Aiaiaiaiiii. Será que é possível
mesmo?

Bom, vamos lá..o filme começa.
Duas amigas chegam a Barcelona..a cidade dos meus sonhos! Ficam numa casa de um casal rico (coisa chata) e lá vão passar um verão inesquecível.




Digo que tenho Vicky dentro de mim, porque ela é o que eu era até pouco tempo atrás antes de tentar ter uma relação aberta (ó eu seguindo a Simone). EXTREMAMENTE FIEL, tremia nas bases a qualquer sombra de aproximação masculina, era inteiramente DELE e c-o-r-r-e-t-í-s-s-i-m-a! Na melhor das traduções TRAVADA!

Depois que o mundo nos mostra que é bem mais interessante você relaxar e se entregar pra uma vida mais sincera consigo mesma, que o inferno não existe, e você não vai queimar nas profundezas de Hades se 'deixar rolar as emoções', até porque a maioria dos homens não
fazem isso, então porque se reprimir sozinha?


Daí vem meu lado Cristina, uma mulher livre e disposta a experimentar tudo e mais um pouco o que a vida tem para oferecer sem medo ou culpas. Porque gente, é isso que a gente leva da vida, e mais que isso, é esse o propósito do vida...SER FELIZ e mais nada. Então Cristina vai se envolver com um artista plástico que ainda não tinha conseguido se desvencilhar de sua ex mulher (Penélope Cruz - onde me vi pela terceira vez, uma mulher caótica, estérica, forte, criativa e imprevisível).


Aquele casal me lembrou algo muito familiar...eles eram violentíssimos!! E se amavam...e algo não dava certo. Aí para minha surpresa os três (Cristina, Penélope - não me lembro o nome de sua personagem, e Antônio) vão viver uma relação mais-do-que-aberta. Essa situação ainda não vivi, pelo menos dentro da mesma casa, porque ai é meu lado Vicky que insiste em permanecer de alguma forma.


Mas digo, por tudo que passei nesses últimos tempos, acho que não estou muito distante disso não. Não que eu queira viver assim, e sim porque a vida foi tomando um rumo que me obrigava a ser...desprendida. E acho que poucas mulheres suportariam viver a experiência que tive.

Coisas da vida.

Só sei que valeu a pena ter assistido o filme, e mais do que tudo...quanto mais eu a vejo mais tenho a certeza de que quando crescer (em alma pelo menos) quero ser Penélope Cruz!





sexta-feira, 8 de maio de 2009

Acho que não sei mais escrever


estou aqui, e agora?
forçar-me a dialogar comigo mesma.

eu e meu duplo, minha sombra, meu ego.

eco


...estou feliz com minha escolha, mas às vezes me sinto só.
A solidão das grandes cidades e as pessoas que não sabem se são educadas ou arrogantes. Vivem com suas questões e seus super-egos.


Será?

Essa pergunta não sai da minha cabeça. Ligo ou não ligo? Ligo. Estou me sentindo uma imbecil também. Sei que fiz a escolha certa, mas segundo Hilda 'tu não te moves de ti' . Valderez está me ensinando a desenvolver mais o raciocínio e a ter críticas. Mas antes não devo aprender a criticar a mim mesma?

Onde está o botão que apaga em mim aquele sentimento que não quero mais? Ou aquele cientista que descobriu onde apagar da memória aquela lembrança que não lhe serve? Estou brigando com minha memória.

Grande aprendizado esse aqui. Não é nada fácil viver distante do seu mundo confortável. Longe de tudo, da sua origem, do seu círculo de pessoas queridas e aventurar-se em outro mundo um tanto distante, em busca daquele sonho mais alto, de poder mergulhar num mar de possibilidades e não naquela piscina rasa.


Aqui tudo é distante, difícil, caro e frio.

Cada um por si, e alguns ajudando...mas é tudo tão difícil, e mesmo assim aqui permaneço, pois as portas estão se abrindo, os canais estão se abrindo de interlocução para com as possibilidades do crescimento que estou almejando.


Não ia adiantar ficar lá em nome de nada! Então porque a dor? Se já está decidido e feito. E pior, não se tem vontade de se desfazer. Não há possibilidade de voltar, a não ser a minha infância, em busca de colher material para Lori.

E aqui fico
E aqui permaneço
Com dores
Amarguras
Momentos e instantes felizes na certeza da escolha correta.

A saudade passa, como tudo passa e o que importa é estar em busca de sua realização.


E ainda pergunto: Se você tiver que escolher entre você e seu amor você escolhe quem?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O HAVER



Resta acima de tudo / Essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / Perdoai! Eles não tem culpa de ter nascido / Resta esse antigo respeito pela noite / Esse falar baixo / Essa mão que tateia antes de ter / Esse medo de ferir tocando / Essa forte mão de homem / Cheia de mansidão para com tudo que existe / Resta essa imobilidade / Essa economia de gestos / Essa inércia cada vez maior diante do infinito / Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível / Essa irredutível recusa à poesia não vivida / Resta essa comunhão com os sons / Esse sentimento de matéria em repouso / Essa angústia a simutaneidade do tempo / Essa lenta decomposição poética em busca de uma só vida, uma só morte / Um só Vinícius / Resta esse coração queimando como um círio / Numa catedral em ruínas / Essa tristeza diante do cotidiano / Ou essa súbita alegria / Ao ouvir na madrugada passos que se perdem na memória / Essa vontade de chorar diante da beleza / Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido / Essa imensa piedade de si mesmo / Essa imensa piedade de sua inútil poesia / E sua força inútil / Resta esse sentimento da infância subtamente desentranhado de pequenos absurdos / Essa tola capacidade de rir à toa / Esse ridículo desejo de ser útil / E essa coragem de comprometer-se sem necessidade / Resta essa distração, essa disponibilidade / Essa vagueza de quem sabe que tudo já foi / Como será, como virá ser / E ao mesmo tempo esse desejo de servir / Essa contemporaneidade com o amanhã dos que não tem ontem nem hoje / Resta essa faculdade incoercível de sonhar, de transfigurar a realidade / Dentro dessa incapacidade de acietá-la tal como é / Essa visão ampla dos acontecimentos / E essa impressionante e desnecessária paciência / E essa memória anterior de mundos inexistentes / E esse heroísmo estático / E essa pequenina luz indecifrável / A que às vezes os poetas tomam de esperança / Resta obstinação em não fugir do labirinto / Na busca desesperada de alguma porta quem sabe inexistente / E essa coragem indizível diante do grande medo / E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva / Resta esse desejo de sentir-se igual a todos / De refletir-se olhares sem curiosidade e sem história / Resta essa pobreza intrínseca / Esse orgulho / Essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino / Resta essa fidelidade à mulher e seu tormento / Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável / Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços / E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado / Resta esse diálogo cotidiano com a morte / Esse fascínio pelo momento a vir / Quando emocionada ela virá me abrir a porta, como uma velha amante / Sem saber que é a minha mais nova namorada


Vinícius de Moraes

quarta-feira, 25 de março de 2009

Deixe ir




Despedir-se de algo que não faz mais sentido e abrir-se para os desafios e as oportunidades de um novo ciclo é parte natural da vida. Então por que será que é tão difícil dizer adeus?

Dia desses, assisti a uma mostra de curtas e médias-metragens do diretor norte-americano Jay Rosenblatt, que antes de ser cineasta trabalhou como psicólogo. Rosenblatt propõe interpretações muito particulares para a realidade em seus documentários. Um deles, em especial, me chamou a atenção: Membro Fantasma, uma reflexão poética sobre a dor e o aprendizado do "adeus". Numa de suas passagens mais marcantes, um homem tosa uma ovelha enquanto uma voz narra as diferentes fases do luto. Indagado sobre as razões de ter escolhido essa cena para ilustrar a perda, Rosenblatt respondeu: "Queria uma metáfora que também significasse renovação. Uma imagem que sintetizasse, ao mesmo tempo, vulnerabilidade e entrega". A ovelha perde aquela cobertura de lã; mas, ao longo de sua existência, outras crescerão e serão tosadas. Um ciclo natural, portanto.

Existem momentos assim na vida, de corte, de conclusão. A perda podevir por uma circunstância externa, como no caso da morte de alguém querido, uma demissão, uma separação repentina, um acidente. Mas pode também ser decorrente de um processo em que a decisão final depende de nós. De qualquer forma, nos dois casos, temos de nos despedir. E esse processo dói.
Deixar ir embora faz parte da existência, tanto quanto começar um ciclo novo. Só que, em diferentes graus, todo ser humano tem dificuldade de colocar um ponto final.
Por isso, teima em insistir numa situação conhecida, embora já insatisfatória, e não consegue assumir que aquela etapa esgotou-se e que deve finalizá-la. É preciso mesmo coragem para dizer adeus. Um adeus verdadeiro, do fundo da alma e com consciência, e não um "até breve, volto já".

É sobre isso, leitor, que vamos falar aqui.




O que é o adeus?

Em primeiro lugar, tiremos a carga negativa que gira em torno da despedida. Por si só, adeus não quer dizer desistência, abandono ou fracasso: essas são interpretações atribuídas por nós mesmos. O psicólogo Wagner Canalonga, sacerdote da Sociedade Taoísta de SãoPaulo, recorre a uma imagem bonita para representar o adeus: é como atravessar uma porta, deixando um ambiente para entrar em outro. A mesma porta que se fecha atrás de você, impossibilitando seu retorno para o primeiro cômodo, permite sua entrada no novo aposento. Em outras palavras, o fim é sempre o começo de uma outra história. Ter isso claro traz uma compreensão diferente e mais leve do que está porvir.

Outra metáfora bastante oportuna: você já ouviu falar de ecdise? Trata-se da mudança periódica de casca dos artrópodes. O esqueleto externo, rígido, limita o crescimento do bichinho. Por isso, de tempos em tempos, é preciso que ele deixe a casca velha para formar uma nova e mais folgada e continuar a se desenvolver. Assim também é conosco: as diversas experiências vividas dia a dia vão nos "alargando"interiormente. Até o instante em que as escolhas antigas tornam-se obsoletas e novas se fazem necessárias – mesmo que seja para continuar na trajetória anterior (no casamento, na carreira, naquele modo de viver), mas com outra presença e outros paradigmas.

E como identificar esse instante de revelação? "É um forte chamado interior, como se uma parte bastante profunda de você – a alma e não o ego – o conduzisse para um rumo um tanto indefinido. Mas, aos poucos, aquele caminho vai fazendo sentido", afirma a psicóloga junguiana Regina Nanô, de São Paulo. "Hoje a razão virou o único ponto de apoio para as pessoas. Mas a intuição é que nos guia, por isso devemos levar em conta o que diz nosso coração." Uma amiga tem um reflexão muitobonita a respeito. Ela costuma falar que "o ego grita, a alma sussurra". Como vivemos num mundo ruidoso, tomado por mandamentos vindos de todos os lados (da cultura, da moda, da publicidade), só escutamos os berros – os do ego, querendo manter o controle a todo custo, e os dos outros. Os apelos da alma, aqueles que injetam vitalidade na existência, ficam inaudíveis.




E a hora certa?
O poeta espanhol Antonio Machado tem um belo verso no qual transmite essa idéia: "O vento, num dia radioso, certa vez chamou". A frase sintetiza o que se passou comigo. Há pouco mais de três meses, comeceia me despedir de uma Fernanda antiga para abrigar uma outra, renovada, que está docemente vindo à tona. Deixei um emprego bacana, com um bom salário, numa empresa em que trabalhei por sete anos e meio e onde tinha algum status e vários amigos. Para quê? Não sei exatamente –dedicar-me ao teatro e ao clown, coadjuvantes da minha trajetória anterior e que agora pedem para ser protagonistas; viajar pelo mundo visitando projetos humanitários; escrever livros. Ao menos, é para isso que me sinto impelida. E esta matéria faz parte da minha despedida, ajudando a aceitar meus sentimentos nesse período frutífero de incertezas.

"O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho", afirma a filósofa Dulce Critelli, professora da PUC de São Paulo. Para ela, a lucidez na finalização de um ciclo indica um importante sinal de maturidade: o indivíduo compreende que é responsável pela própria existência. E também pelos ganhos e perdas, acertos e erros de suas escolhas. O processo da despedida sempre carrega duas grandes questões – cruciais, aliás, para a maioria das tradições filosóficas. Quem sou eu? E qual é o sentido da vida? Segundo a filósofa, nem sempre o adeus é consciente, fruto de um período de maturação. Pode ser o desejo de escapar de um contexto desconfortável. Isso acontece, por exemplo, quando uma nova habilidadeé requerida no trabalho e o indivíduo se sente acuado ou inseguro. Também quando a intimidade começa a se estabelecer num relacionamento amoroso e uma das partes acha que não suporta a situação. Em ambos os casos, a pessoa decide, às pressas, pôr um ponto final na experiência a fim de fugir dela e evitar o confronto com seus fantasmas. "Essa atitude não é de engajamento com uma decisão madura", afirma Dulce.

"Na ruptura coerente, existe uma construção gradativa de bases para o novo caminho."

Portanto, antes de dizer adeus, vale refletir bastante, ponderar, pensar em como dar os próximos passos. E também perguntar: por que quero fazer isso? Para escapar de uma dificuldade ou porque desejo dar um rumo mais rico à minha vida?

A publicitária Rosângela Carrasco, de 46 anos, levou bastante tempo para amadurecer sua resolução de mudar totalmente de rumo. Em julho de 2006, depois de mais de uma década empregada numa livraria, ela pediu demissão e lançou-se na carreira de atriz, com a qual sonhava desde a adolescência. "Trabalhava naquele emprego, mas a vozinha interior continuava presente, dizendo que eu poderia ser mais feliz. Aquele trabalho não tinha mais a ver comigo."
O adeus ao trabalho, em si, não foi tão difícil. Mas as renúncias que vieram em seguida sim. Rosângela alugou o apartamento em que morava e voltou a viver com a mãe, depois de mais de 20 anos. Além da privacidade, sente falta também dos amigos do ambiente de trabalho, com os quais já não tem tanto contato. Sem contar o desafio de sempre: as finanças. Porém, as conquistas compensam. Mesmo que, a olhos alheios, pareçam ainda insuficientes, para Rosângela elas faíscam como pedras preciosas. Ano passado, ficou três meses em cartaz com a peça Pedido de Casamento, de Anton Tchekhov, no Teatro Bibi Ferreira. "Acho bacana ter encontrado a coragem de buscar meu sonho e ter dito adeus a coisas até então importantes", conta ela.




Por que o sofrimento?

Eis uma das grandes complicações em despedir-se: como admitir que a vida planejada anteriormente não faz mais sentido para a pessoa que você é hoje? A impermanência da existência incomoda porque"inviabiliza" nosso controle. Por isso, uma das razões para o sofrimento gerado pelo adeus é um velho conhecido: o apego.

"Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às situações e isso nos liga a elas de tal forma que não conseguimos nos desapegar", diz o psicólogo Arnaldo Bassoli, da Associação Palas Athena, em SãoPaulo. Mas, se as transformações internas e externas são inevitáveis, por que se agarrar a certos momentos quando sua existência está levando você para outro lado?

O problema é que o ser humano, ainda mais na sociedade consumista de hoje, não se contenta apenas em vivenciar algo; ele quer possuir esse algo, retê-lo, conservá-lo em formol para que se mantenha "para sempre" tal e qual era no início – e isso vale para tudo: um parceiro,um emprego, um status, um argumento, até uma rotina. E que angústia perceber a impossibilidade desse desejo! Bassoli usa uma metáfora budista para mostrar como lidar com essa situação natural da vida, que é de constante mutação: segure firmemente um objeto em suas mãos, alongue os braços à sua frente com a palma para baixo e relaxe seus dedos: você perderá o que carrega. Contudo, se mantiver a palma da mão para cima, mesmo afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo, então, é conservar o que se tem com desapego ou, então, soltar de vez o que não tem mais valor.

E o que nos segura?

Um adeus autêntico exige coragem, ainda mais quando vai contra o que propõe a sociedade contemporânea. Valores como segurança e estabilidade (muito mais no sentido da imobilidade que da harmonia) permanecem em alta. Então, por que arriscar? Ao mesmo tempo, a sociedade também nos impele ao frenesi das falsas mudanças (de carro, roupas, bens de consumo, parceiros sexuais...) que nos iludem com suas promessas de felicidade. "Na agitação de vida atual, muitas vezes a pessoa não consegue gestar um novo projeto para si mesmo. Ou, por pressões externas, não chega nem sequer a desejar a formulá-lo", diz o filósofo Franklin Leopoldo e Silva, professor da USP. "As únicas mudanças permitidas são aquelas que estão dentro dos esquemas formulados pela sociedade de consumo e sua infinita oferta de papéis e 'identidades'. Tudo isso em benefício de uma falsa liberdade, posto que delimitada", diz ele. A solução nesse caso é seguir o que de mais particular e verdadeiro clama dentro de nós. E seguir esse anseio verdadeiro sem ter medo ou culpa.

Negar a própria "bem-aventurança", como dizia o mitólogo norte-americano Joseph Campbell, ou tornarse surdo diante dos apelos da alma pode trazer conseqüências até para o organismo. "Os conflitos internos vão aumentando, a pessoa é tomada pelo desânimo, depressão e cansaço, a energia pára de fluir – e isso explode num sintoma físico", diz a psicóloga Regina Nanô. Irritabilidade excessiva, gastrite, constipação, enxaquecas ou infecções freqüentes... É preciso prestar atenção tanto no corpo quanto no coração: será que não estão dizendo à razão que é hora de recomeçar?





Ganhos, não perdas

O medo da perda dificulta essa tomada de decisão. Especialmente pela constatação de que deixaremos para trás um parte de nós mesmos – o que fomos – para sermos o que somos agora. Porém, junto com toda renúncia há sempre um ganho e um aprendizado, que aos poucos se dão a conhecer."Todo adeus traz, consigo, um sim para a vida dito imediatamente antes", afirma a filósofa Dulce Critelli. Como a princípio esse sim nem sempre é evidente, vem a angústia. Muitos especialistas comparam o processo de encerramento de um ciclo à experiência do luto, com as mesmas fases passadas por alguém que tenha perdido um parente, por exemplo. Há o choque inicial, o período de negação ou dúvida e o momento em que sentimentos e sensações misturados (da insegurança à solidão, da confiança a um intenso contentamento) vêm à tona de forma torrencial. Depois, o instante em que o indivíduo se dá conta de que o fato é real e, por fim, a aceitação. Permitir-se vivenciar todos os estágios é fundamental.

Os especialistas em luto, inclusive, aconselham externalizar esse adeus, dizer com todas as letras para si mesmo o que se deseja largar e soltar. Algumas pessoas precisam verbalizar o que querem da vida para ganhar força para tomar uma decisão. Outra recomendação é reservar uma parte do dia para viver a dor da perda. Nesse momento, que pode ser antes de dormir ou num fim de tarde, por exemplo, se pode chorar, ir ao fundo do poço. Durante o restante do dia, porém, o mais aconselhável é viver o presente, sem se deixar carregar pelo sofrimento.

"O adeus acontece desde o instante em que resolvo mudar ou inicio a mudança. Até o momento da ruptura, elaboro o que ganho e o que perco e faço gradativamente as despedidas", afirma a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos da Morte da USP. O luto continua, mesmo depois da decisão concretizada. "Por isso, é comum que a pessoase pegue, tempos mais tarde, chorando de saudade ou questionando se aquela opção foi a melhor."

Segundo Ingrid, de todas as despedidas cotidianas, a mais delicada é a da separação amorosa. "Mesmo que seja um adeus fruto de consenso entre ambas as partes, a aceitação da própria 'morte' na consciência do outro é doloridíssima", diz. "Reconhecer que você não fará mais parte das escolhas e das alegrias do ex, que não partilhará mais suas alegrias, é muito difícil." Um amigo meu, hoje com 39 anos, há algum tempo me falou sobre sua experiência: "Os períodos pré, durante e pós-separação doeram em mim tanto quanto a morte de meu pai", conta."Precisei olhar para o futuro, e, mais do que nunca, considerar a fase anterior como parte da memória e de minha formação", disse.




Nosso novo "eu"
A nova etapa inevitavelmente trará surpresas, e aqui reside outro obstáculo freqüente na hora de dizer adeus: o medo do desconhecido, do imprevisível. De sair de uma situação esquematizada – um parceiro que já conhece seus defeitos, uma função que domina no trabalho, um ambiente em que todos sabem quem você é – para outra diferente, com as definições ainda por fazer. "O adeus traz uma sensação de caos, mas é importante ter claro que se trata de uma reorganização e não de uma desestruturação", diz Regina Nanô. A despedida implica lançar outro olhar não só ao que está ao redor, mas também a si mesmo – e o grande medo da despedida, talvez o maior de todos, vem daí. Medo desse novo"eu" que, com o fim do ciclo, ganha permissão para desabrochar e revelar-se ao mundo. Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.


"O dharma não muda. A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele", diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão."Uma pessoa que age em coerência com seu chamado interior não precisa dizer adeus", diz. Ela já vive a própria escolha, sempre. "A vida dá umas puxadinhas aqui e ali para que voltemos ao nosso caminho."


A propósito, despeço-me aqui, leitor. Preciso arrumar as malas, desmontar o apartamento. Espero que sua trajetória seja permeada por belos momentos de despedida.


Adeus!



por Fernanda Ceccon